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sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Beringela

    Hoje eu quis falar com você, conversar sem nenhuma restrição sobre tudo o que fosse e é e será. Hoje eu quis muito que a cozinha fosse mais uma vez palco das suas artes, experimentações. Quis sentir sabores conhecidos, seus temperos e tempos

    Era bom quando você estava bem comigo e a gente passave tempo na cozinha conversando sobre o que quer que fosse. Hoje eu quis compartilhar um pouco de esperança com você, pensar que talvez as coisas tivessem jeito e se apenas isso ou aquilo fossem verdade as coisas seriam melhores. Não sei se era seu pensamento pastoral católico, ou se era uma coisa sua mesmo, parecia que sempre havia um jeito

    Hoje eu quis desesperadamente conversar com você, mas só se você estivesse bem comigo, talvez cozinhar, tomar um vinho. É que agora eu posso, sabe? Acho que agora você deixaria. Já são tantos cabelos brancos que não é possível que implicasse com uma taça. É que é tão difícil pensar você sem cair em algumas ciladas. Não seria fácil conversar com você, a gente divergia de algumas coisas básicas, mas a gente também convergia. Saindo de pressupostos diferentes a gente concordava com outros pontos, também básicos.

    Você sempre foi mais mediadora, mas também escondia o que pensava de verdade. Então eu quis conversar com uma versão sua que nem sei se é real ou se eu inventei. É que eu precisei de um pouco de coragem, de esperança, e na minha cabeça conversar com você talvez me dessem um dos dois.
Passar um tempo na cozinha com você, talvez inventar uma coisa nova ou só cozinhar com o mesmo tempero que você sempre gostou, só pra me dar um pouco de referência, um chão seguro pra pisar. Hoje eu quis um pouco de paz.

sábado, 9 de setembro de 2023

Fogo

Eu queria não sentir esse desespero que vai ocupando meu peito, tomando conta da minha respiração e me impedindo de continuar o que eu estava fazendo.

Essa sensação desafiadora que me acelera os batimentos, de um jeito ruim, e me coloca em posição de vida ou morte quando não tem nada acontecendo de fato, quando estou seguro.

Se apaga solo.

Essa inquietação sem fim que me faz correr, não me deixa enxergar ou racionalizar, me coloca em posição fetal na cama, chorando sem saber direito o por quê.

Eu queria não ser assim. Eu queria ser 'normal' e passar pelas situações incômodas com mais calma, mais consciente de que está tudo bem e vai passar.

E não ter essa sensação falsa que só posso estar morrendo, que não entra ar nos meus pulmões, que meu coração vai explodir.

Se apaga solo.

Fiquei meia hora sem me mexer, deitado na cama, abraçado no travesseiro pra conseguir perceber que foi um truque do meu cérebro, que continuo aqui, são e salvo.

Eu queria não ser assim pra não sentir essa vergonha como se tivesse atrapalhado a noite de todo mundo, mas eu sei que não atrapalhei  eu sei que quem está comigo entende, comemora as pequenas vitórias e não vai cobrar mais do que posso dar.

Se apaga solo.

Enquanto a tensão e as lágrimas vão se dissipando, os pensamentos se organizando e o coração voltando pro ritmo, consigo finalmente respirar. Está passando esse vendaval.

O corpo finalmente relaxa e racionalizo o que aconteceu. Só tenho a agradecer estar com as pessoas certas. Ter um apoio profundo é tão significativo pra mim.

Essa chama de ansiedade queima forte, me abala, mas 'se apaga sola'.

Vem ver

Beringela

     Hoje eu quis falar com você, conversar sem nenhuma restrição sobre tudo o que fosse e é e será. Hoje eu quis muito que a cozinha fosse ...